Pesquisadoras brasileiras descobrem nova espécie de microrganismo na Antártida que pode indicar vida fora da Terra

Encontrada em um vulcão ativo com águas geladas e temperaturas extremas, a arqueia batizada de Pyroantarticum pellizari tem um "kit de sobrevivência molecular" que intriga cientistas — e aponta para possibilidades além do nosso planeta.

Ilha Decepción, na Antártida. Foto:Andrew Shiva/ Wikimedia Commons


Uma nova espécie de microrganismo capaz de sobreviver a condições extremas de temperatura foi descoberta por pesquisadoras do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) em uma ilha vulcânica na Antártida.

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A descoberta, além de ampliar o mapa da vida na Terra, abre uma janela para a astrobiologia: o organismo pode ajudar a entender como a vida poderia existir em luas geladas do sistema solar.

O estudo foi publicado no periódico ISME Communications e contou com financiamento da FAPESP e do Instituto Serrapilheira.

A ilha que parece outro planeta

A ilha Decepción, localizada na Antártida, é um vulcão ativo cuja caldeira está inundada pelas águas geladas do oceano antártico.

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Nela, a água próxima do ponto de congelamento convive lado a lado com regiões de calor extremo — um ambiente que desestrutura moléculas essenciais de qualquer célula comum.

Foi exatamente nesse cenário hostil que as pesquisadoras encontraram a Pyroantarticum pellizari, batizada em homenagem à bióloga Vivian Pellizari, veterana professora do IO-USP e uma das principais referências em pesquisas com extremófilos no Brasil.

“É como se ela tivesse um kit de sobrevivência molecular”, descreve Ana Carolina Butarelli, primeira autora do estudo. A espécie possui genes associados a proteínas que protegem moléculas essenciais sob estresse térmico intenso. “Esses escudos ajudam a manter o DNA estável mesmo sob condições extremas”, explica.

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Uma biblioteca genética de dez anos

As amostras que levaram à descoberta foram coletadas há mais de dez anos pela professora Amanda Bendia durante expedições do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).

Na época, Bendia usou a metagenômica, que é uma técnica que sequencia o genoma de comunidades inteiras de microrganismos, para guardar esse material em uma espécie de biblioteca genética.

Butarelli revisitou esses dados anos depois. Com técnicas de reconstrução genômica, as pesquisadoras compararam os genomas reconstruídos com bancos de dados globais e perceberam que haviam encontrado uma linhagem completamente desconhecida.

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“Imagine pegar milhares de livros diferentes, triturá-los em pequenos pedaços e depois usar computadores para reorganizar esses fragmentos e descobrir de quais livros eles vieram”, ilustra Butarelli. No caso da metagenômica, os “livros” são os genomas dos microrganismos daquele ambiente.

Como a espécie ainda não foi isolada e cultivada em laboratório, ela recebe oficialmente o prefixo candidata — uma prática padrão para organismos identificados apenas por sequenciamento genético.

O que isso tem a ver com vida em outros mundos

Algumas luas dos planetas gigantes do sistema solar escondem oceanos de água líquida sob espessas camadas de gelo.

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Europa, lua de Júpiter, e Encélado, lua de Saturno, apresentam sinais de que esses oceanos estão em contato com um interior rochoso aquecido.

A Pyroantarticum pellizari reforça essa conexão: ela sobrevive sem luz, obtém energia sem oxigênio e resiste a variações bruscas de temperatura, salinidade e disponibilidade de nutrientes.

“Colocaram mais uma peça no quebra-cabeças da evolução das arqueias”, celebra a bióloga Cristina Nakayama, professora da Unifesp.

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A próxima etapa é tentar isolar a espécie em laboratório. Bendia estima que uma nova amostra poderá ser coletada em expedição do PROANTAR prevista para o fim deste ano.