Volta às aulas: pais ainda se dividem sobre o retorno de menores de 5 anos

EDUCAÇÃO E PANDEMIA. Especialistas reforçam a importância da escola para as crianças e explicam como proteger os pequenos

Ensino infantil é importante para o desenvolvimento das crianças, na primeira infância, dizem especialistas

Ensino infantil é importante para o desenvolvimento das crianças, na primeira infância, dizem especialistas | Nair Bueno/DL

O surgimento da variante ômicron do coronavírus elevou o número de casos diários de Covid-19, que chegou ao recorde de 298.408 em 24 horas, na última quinta-feira (3). O número de óbitos também voltou a subir, alcançando o maior patamar desde agosto de 2021, com 1.041 mortes. Diante de tais notícias, muitos pais voltaram a se sentir inseguros sobre o retorno das crianças às escolas, especialmente das menores de 5 anos, que ainda não são elegíveis para a vacina.

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“São 20 crianças na sala. Por mais que os professores se esforcem é difícil controlar. Eu fico com medo, pois criança leva tudo na boca e ainda tem os brinquedos, que todos pegam. Enfim, eu e meu marido decidimos que não vamos mandá-la para a escola neste momento. Ela já pegou Covid-19 e foi muito difícil, não queremos passar por isso de novo”, diz a dona de casa Daniela Marques da Silva, 28 anos, mãe da pequena Laura, de 3 anos, que mora em São Miguel Paulista, bairro da zona leste da Capital.

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Menos alunos

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Assim como Daniela, muitos pais decidiram não mandar as crianças para a escola. Dados divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação (MEC), apontam que o Brasil perdeu cerca de 650 mil matrículas de estudantes na educação infantil durante a pandemia.

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Considerando somente as creches, o número de matrículas passou de 3,7 milhões em 2019 para 3,4 milhões em 2021, com recuo de 21,6% na rede privada. Segundo o documento, embora menos acentuado, também houve decréscimo na rede pública, o que mostra que nem todos os alunos que deixaram as escolas particulares migraram para a escola pública, o que aponta também que a queda se dá tanto por questões econômicas, como por medo da pandemia.

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É preciso superar

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Ainda que a Covid-19 seja a segunda causa de mortes em crianças, atrás apenas dos acidentes de trânsito (de acordo com o Ministério da Saúde, desde o início da pandemia cerca de 1,4 mil crianças de 0 a 11 anos morreram em decorrência do SARS-COV2), especialistas acreditam que os pais devem superar o medo e mandar os filhos para a escola, obviamente com os devidos cuidados.

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A tosadora Fernanda Tiemi Yamada, de 36 anos, mãe de três filhos, entre eles Serena de 2 anos, compartilha de tal opinião. “Tenho sim um pouco de receio de mandá-la para a escola, porém, acredito também que a falta da escola, em algum momento, traz mais prejuízos, tanto de aprendizado quanto social (…). No ano passado, ela foi para a creche e eu me senti confortável, foi seguro. Qualquer sinal de nariz escorrendo, a escola mandava voltar e se tivesse febre eles pediam teste”, conta Fernanda, que mora na zona norte de São Paulo.

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Para a especialista em educação, Claudia Petri, coordenadora de implementação regional do Itaú Social, a percepção de Fernanda sobre os prejuízos da falta de escola está correta. “A primeira infância é quando se formam 90% das conexões cerebrais e estímulos sociais, emocionais, físicos e cognitivos, que são muito importantes nessa fase. Na educação infantil, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz os eixos estruturais interagir e brincar, para que a criança consolide sua aprendizagem. É a partir da brincadeira e da interação que ela desenvolve, nesta etapa, as estruturas, habilidades e competências que serão determinantes ao longo de toda a vida”, explica.

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Para ela, é importante que as crianças retornem às escolas, para estabelecer vínculos com colegas e professores e para retomar suas aprendizagens. “A pandemia trouxe muitos impactos na primeira infância, por isso, o retorno às aulas é fundamental. Para se ter uma ideia, o estudo Primeiríssima Infância, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, apontou que 27% das crianças voltaram a ter comportamentos de quando eram mais novos, como chorar muito, ficar molhada sem pedir para ir ao banheiro e falar menos.”

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Como proteger?

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Os pediatras Eitan Berezin, do Departamento Científico de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), e Paulo Taufi Maluf, que atende no Instituto da Criança HCFMUSP e no Hospital Sírio Libanês, também acreditam que o retorno das crianças à escola é essencial.

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“É seguro e indispensável mandar as crianças para a escola ou creches. A importância de pré-escola é enorme no desenvolvimento infantil”, ressalta Berezin.

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Para proteger os pequenos que ainda não podem se vacinar, Maluf lembra que os cuidados devem se centralizar nos adultos e nas próprias escolas, cabendo aos pais se aterem sobre os cuidados determinados pelas Secretarias de Saúde, fiscalizar e enfatizar aos filhos.

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“As ações deverão abranger medidas de proteção a serem adotadas pelos adultos, e não diferem do que já se conhece, como uso de máscaras, distanciamento, higiene cuidadosa, além de procurar manter as crianças mais distanciadas nos ambientes fechados”, alerta Maluf.

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Berezin lembra também que pais e escolas devem trabalhar juntos. “Deve haver uma colaboração entre pais e a escola no sentido de reforçar a importância da vacinação de adultos, crianças maiores de 5 anos e adolescentes. Além disso, crianças com algum sintoma respiratório ou febre não devem ir à escola, que deve ser comunicada nesses casos. Crianças com contato em casa também não, a não ser que tenham exame negativo. É necessário o uso adequado de máscaras e de preferência aquelas do tipo N95 ou PFF2 em maiores de 5 anos. A adoção de distanciamento social, principalmente nos momentos de alimentação, não compartilhar os mesmos talheres, e realizar a higienização com água e sabão ou álcool gel, também é imprescindível”, detalha o médico. (Gladys Magalhães)