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Sexta, 18 Maio 2018 21:00

“Eu nunca prometi ficar quatro anos”

Perto de deixar a Câmara Municipal de São Paulo, o vereador expõe os motivos que o incentivaram a uma nova disputa pelo Senado
"Ninguém que coloca a saúde ou a vida em risco para conseguir o sustento de seus familiares é livre de verdade", afirma Suplicy "Ninguém que coloca a saúde ou a vida em risco para conseguir o sustento de seus familiares é livre de verdade", afirma Suplicy Thiago Neme/Gazeta de S.Paulo
Por Marcelo Tomaz
De São Paulo

O gabinete do vereador Eduardo Matarazzo Suplicy (PT), 77, é um dos mais movimentados da Câmara Municipal de São Paulo. Diariamente, dezenas de pessoas passam pelo local procurando o economista, professor e senador por São Paulo durante 24 anos ou algum membro de sua equipe.

Nesta entrevista exclusiva, o cofundador do Partido dos Trabalhadores expõe a Gazeta os motivos que o levarão a abandonar o Legislativo paulistano para disputar novamente o Senado, sua visão sobre o governo de Michel Temer (MDB) e qual o futuro de seu principal ideal político: a Renda Básica de Cidadania.

Gazeta de S.Paulo - O senhor foi mais votado dessa legislatura, mas há no horizonte uma provável candidatura ao Senado. Por que tomar essa decisão e como o senhor vê a prática de políticos com mandato se candidatarem a outros cargos?

Eduardo Suplicy - Em março de 2016 perguntei ao prefeito Fernando Haddad se ele preferia que eu permanecesse na Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania até o dia 31 de dezembro ou fosse candidato para ajudar ele e o partido. Ambos acharam por bem que eu fosse candidato. Logo depois dessa conversa, fomos a um grande evento do PT em São Miguel Paulista. Lá ele perguntou ao público: “que tal o Eduardo Suplicy ser nosso candidato a vereador?”. Todo mundo levantou a mão, aplaudiu e eu aceitei.

Eu tive 301.446 votos, a maior votação na história para um vereador de São Paulo e do Brasil. Quando uma pessoa tem algum problema na vida – e foi o que aconteceu comigo (derrota na disputa pelo Senado em 2014) – pode cantar. “Um homem de moral não fica no chão... Reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Essa canção do Paulo Vanzolini faz bem e a gente precisa usar muito na vida, como eu usei.

Você pode ver pelos comentários na minha página do Facebook ou quando encontro uma pessoa na rua. Sempre sou instigado: “você precisa voltar ao Senado”. Em nenhum momento eu prometi que ficaria os quatro anos do mandato, diferente de outra pessoa que assim o fez e cobraram muito dela. Os meus eleitores disseram diversas vezes que me querem no Senado novamente, que eu posso ir e que irão apoiar. As pesquisas de opinião têm apontado que estou entre os que estão na frente e são duas vagas. Vamos ver.

GSP - O senhor é economista e dedicou grande parte de sua trajetória a pesquisar projetos de distribuição de renda. Essa nova candidatura ao Senado está relacionada ao aumento da pobreza e da desigualdade no Brasil?

ES - Atuei em muitas CPIs. A revista “Exame” chegou a publicar uma reportagem me chamando de “fiscal do Senado”. Entre outras boas propostas, houve a do recall político. Quando uma pessoa assume, passado meio mandato, um grupo de eleitores pode assinar uma petição para que haja nova eleição que a confirma ou não no cargo, sugestão do Fábio Konder Comparato que eu adotei.

Apresentei projetos para atender à reivindicação de inúmeras cooperativas, sobretudo as dos agricultores familiares, para melhor regulamentar e dar estímulo a essa forma de organização. Também elaborei três propostas sobre doenças raras, para que haja um fundo que financie pesquisas sobre elas.

E claro, a minha principal preocupação foi criar instrumentos de política econômica e social com o objetivo de tornar o Brasil justo, com uma distribuição de renda mais igualitária. São muito importantes os objetivos de desenvolvimento, estabilidade de preços e pleno emprego, mas é fundamental que todos os habitantes da nação tenham uma vida digna e, para isso, se faz necessário, se levarmos em conta valores fraternais, inclusive no sentido de diminuir a criminalidade violenta, aperfeiçoar a distribuição de renda.

GSP - Como o senhor analisa o governo Michel Temer (MDB), principalmente em relação aos indicadores sociais?

ES - Acredito que você tenha lido o artigo do presidente Michel Temer (publicado pela Gazeta no último sábado). Ele fala de avanços, como se tudo estivesse sendo melhor, mas a verdade é que, em tempos recentes, os indicadores de pobreza pioraram.

A extrema pobreza cresceu 35% na Grande São Paulo em um ano e a desigualdade social tem aumentado, assim como a mortalidade infantil. Após uma década de avanços, em 2016 o número de óbitos de crianças entre 1 mês e 4 anos de idade aumentou 11%.

No artigo, o presidente também faltou com a verdade ao mencionar que o Bolsa Família foi ampliado. Conforme os registros do Ministério do Desenvolvimento Social, o maior número de famílias beneficiárias se deu em julho de 2014, quando 14,2 milhões de famílias eram contempladas mensalmente com um valor médio de R$ 169,41 e gasto total de R$ 2,9 bilhões ajustado pelo INPC. Em abril último, eram 13,7 milhões de famílias beneficiárias, com valor médio mensal de R$ 167,71 e R$ 2,4 bilhões de gasto total.

Com isso, o que eu procuro aqui demonstrar é que, do ponto de vista da erradicação da pobreza, não avançamos. Os gastos com os programas sociais vem diminuindo, a mortalidade infantil aumenta e crescem o número de moradores em situação de rua.

GSP - Como está acontecendo com São Paulo...

ES - A tragédia do Largo do Paissandu fez com que mais e mais pessoas tomem consciência do problema que é a questão da moradia em São Paulo. Muitas ideias podem vir do diálogo e é isso que estamos tentando promover na Câmara Municipal de São Paulo com todas as partes interessadas. A medida que a equipe do prefeito Bruno Covas se dispuser a dialogar, digamos, não apenas com empresários, mas também com a população carente e ouvir sugestões, será possível chegarmos a boas propostas.

GSP - Essa falta de bem-estar social e a ausência de direitos básicos colaboram para a radicalização dos conflitos e o aumento da violência?

ES - Sim. Vamos supor que você faça uma matéria tão boa que o novo presidente eleito em 7 de outubro fique persuadido a instituir a renda básica. Na época do Natal ele anuncia que, a partir de janeiro de 2019, todas as pessoas do Brasil, mulheres e homens, não importa a origem, raça, sexo, idade, condição civil ou socioeconômica, inclusive os estrangeiros residentes aqui a cinco anos ou mais, terão direito a uma renda básica, na medida do possível e do progresso do País, para atender as necessidades vitais de cada um. 

Vamos começar com um valor modesto, digamos melhor do que o que pagava o Bolsa Família – para ser melhor para essas pessoas –, conforme o progresso do Brasil. A ninguém, então, será negado o direito inalienável de participarmos da riqueza comum de nossa nação.

Ao contrário do Bolsa Família, não há burocracia. Não é preciso saber quanto cada um ganha ou qual seu patrimônio. Assim, eliminamos qualquer estigma ou sentimento de vergonha que uma pessoa tem por necessitar de um complemento de renda. Eliminamos o fenômeno da dependência, porque quem recebe não precisará desistir caso obtenha outra renda e nem deixará de obter outra renda para continuar recebendo o benefício, caindo na armadilha do desemprego e da pobreza.

Ninguém que coloca sua saúde e sua vida em risco para conseguir o sustento da família é livre. A renda básica oferece a pessoa o poder de rejeitar o crime, de rejeitar a violência, de dizer não e ainda assim viver com dignidade. Como disse a Nobel da Paz, Amartya Sem, desenvolvimento, se for para valer, deve significar um maior grau de Liberdade real para todos. (Marcelo Tomaz) 

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