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Sexta, 20 Abril 2018 21:02

“Incorporadores são muito poderosos”

Pressão das incorporadoras acabou na demissão do então secretário do Verde e do Meio Ambiente
"Os incorporadores são muito poderosos e as últimas gestões fortaleceram ainda mais a destruição causada por eles em São Paulo", disse Natalini "Os incorporadores são muito poderosos e as últimas gestões fortaleceram ainda mais a destruição causada por eles em São Paulo", disse Natalini Thiago Neme/Gazeta de S.Paulo
Por Marcelo Tomaz
De São Paulo

O vereador Gilberto Tanos Natalini (PV) nasceu em 28 de março, no Rio de Janeiro. Antes de completar a maioridade radicou-se em São Paulo, onde estudou na Escola Paulista de Medicina até 1975.

Começou sua vida pública no movimento estudantil que lutou pela democracia naquela década, aproximando-se de causa populares e fundando e presidindo a Associação Popular de Saúde.

Aos 66 anos, o hoje vereador eleito para o quinto mandato com mais de 28 mil votos revela com exclusividade à Gazeta os motivos que levaram a sua demissão da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, fala do acirramento na disputa pelas áreas verdes de São Paulo e do que pensa para o futuro da cidade.

Gazeta de S.Paulo - A disputa entre incorporadores imobiliários e protetores do meio ambiente se acirrou nos últimos anos?

GN - Acirrou muito. Nos governos Haddad e Doria houve um destrambelhamento total, se abriu a cancela e a coisa ficou muito mais explícita. Os incorporadores são muito poderosos e as duas últimas gestões fortaleceram ainda mais a destruição causada por eles. Algumas vezes, politicamente, vencemos batalhas fazendo pressão contrária à pressão do interesse privado. 

GSP - Como você enxerga a disputa entre o interesse público e o interesse privado nas áreas verdes de São Paulo?

Gilberto Natalini - Existem diversas áreas verdes em São Paulo, principalmente nos extremos da cidade, mas elas são mal distribuídas. Onde a população realmente mora, a quantidade de áreas verdes é muito pequena e temos dificuldades enormes para preservar o que resta. É uma luta quase mortal. Existe uma pressão social muito grande em torno das áreas remanescentes e, nas áreas públicas, essa pressão é violenta demais.

GSP - A qual tipo de pressão você se refere?

GN - A pressão nas áreas verdes vem de três tipos de agentes: o primeiro é o poder econômico, os incorporadores imobiliários. Eles detêm parte considerável dos estoques de áreas verdes na cidade, compraram isso. Esse setor faz todas as manobras possíveis para derrubar o verde, aterrar nascentes e construir prédios. Eles são os adversários mais importantes do verde em São Paulo.

O segundo inimigo das áreas verdes é o crime organizado, particularmente na periferia. Temos como exemplo o espólio do antigo Clube de Regatas Tietê. Lá, existia uma área verde virgem de aproximadamente 200 mil m², na beira da Represa de Guarapiranga. O espaço foi loteado e 10 mil m² de Mata Atlântica foram devastados. No lugar construíram um grande condomínio, onde as casas são irregulares. Esse empreendimento foi feito por agentes ligados ao crime organizado.

Outro caso parecido aconteceu com o futuro ex-parque da Vila Brasilândia. Aquela era uma área que a Justiça mandou a Prefeitura de São Paulo tomar posse, mas a gestão Haddad titubeou, o terreno ficou dormitando e acabou virando um enorme loteamento clandestino, feito em aliança com o crime organizado. Isso já aconteceu e acontece em diversas áreas da cidade, como na zona leste.

O terceiro inimigo é a pobreza. Pessoas levam suas famílias para pequenos acampamentos em áreas de mata, outros vão chegando e logo estão levantando moradias, derrubando árvores... Em pouco tempo o bairro está lá, pronto. 

GSP - Esse protagonismo do mercado está relacionado a sua demissão da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente? 

GN - Eu sai porque o setor da incorporação imobiliária reagiu. Eu dei um freio de arrumação na pasta para evitar que erros que vinham ocorrendo se repetissem, troquei funcionários de funções importantes e transferi outros. O setor reclamou das mudanças, falou que eu tinha parado o mercado e alegou haver morosidade nos processos em trâmite. Mas, após um estudo detalhado, descobrimos que em 78% dos processos a demora ocorria por culpa das empresas, que não apresentavam documentos, mudavam projetos já durante a construção e outras coisas que a lei não permite fazer. Após eu expor isso, representantes do setor foram ao gabinete do prefeito fazer queixas sobre mim, dizendo que eu era um inimigo. Foi ai que a minha cabeça rolou.

GSP - Por que você levantou suspeitas de irregularidades nas ações de licenciamento ambiental durante sua gestão na pasta?

GN - Haviam várias suspeitas e, quando assumi, fiz um estudo junto a Controladoria Geral do Município que apontou para nós por onde as irregularidades poderiam estar passando. Eles propuseram mudanças e nós mudamos. Antes, por exemplo, alguém chegava para ver um processo e subia para a sala do técnico, onde eles conversavam de portas fechadas. Isso acabou. Criei uma praça de atendimento, onde o processo desce com o técnico para ser analisado em área pública, já que essa intimidade entre as empresas e o poder público poderia se tornar promíscua. Outra prática implantada foi o licenciamento ambiental industrial, que pode ser feito pela internet. Ele acabou com o contato pessoal, mas as normas e regras permaneceram. Ainda é preciso apresentar a mesma documentação, mas é um processo mais rápido, moderno e sério.

GSP - A nova Lei de Zoneamento proposta pela gestão do ex-prefeito João Doria é fruto do espaço que o empresariado conquistou na gestão pública paulistana?

GN - As mudanças feitas pela gestão Haddad já eram permissivas e votei contra o projeto naquela ocasião. O Plano Diretor e a Lei de Zoneamento vigente aumentaram em 30% o potencial construtivo em áreas verdes, inclusive nas públicas. Essa destruição institucional, vinda de um conluio entre incorporadoras imobiliárias – que não tem o menor amor pela sustentabilidade da cidade –, Executivo e Legislativo, onde também há defensores disso, não é novidade, mas ganhou mais força pelas relações de proximidade que o ex-prefeito João Doria mantém com osetor.

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